Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Despejo

Por intolerância e preconceito tenho a triste noticia de que a Meg foi afastada do nosso convívio. Moro em um condomínio de octagenários, a maioria de famílias de sobrenomes nobres, mas que, como o resto da sociedade desta cidade, perderam os recursos sem perder a pompa. A “responsável”, em especial, tem um passado que evitarei relatar para evitar ações, porém, mantém sua função há quase três decadas, e atribui-se como uma das particulares tarefas, escolher quem pode ou não morar neste cafofo. No meu caso, por descuido ou pelo estatus da profissão acabei sendo acolhido. Não por nada além de que o mesmo fica localizado próximo as minhas atividades principais, e porque desde algum tempo não faço uso de automóveis, então, escolhi este endereço. Parenteses ao fato de que não me queixo do imóvel, mas não carrego nenhum orgulho maior em enunciar seu nome, sim, porque aqui não é necessário dar o número, basta citar o médico que o batiza  para que todas as tele-entregas e moto-taxistas o encontre.

No dia da mudança recebi, como boas vindas, uma coleção de atas, talvez dos últimos dez anos, apenas para que ficasse claro as inúmera regras de tolerância. Entre elas: mudanças devem começar as oito da manhã até as quatorze horas, parede só pode ser furada até as dezesseis, o salão de festas – outrora de bela vista e amplo- não pode ser usado para festas. No quesito animais domésticos uma resalva: “serão tolerados os que estejam de acordo com as normas de boa convivência.”

Meu primeiro cão, caro e meio sindrômico, é exótico por sua beleza relativa - mais para feio,  a Donna, cum pug com um pedigree rico repleto de nomes estrangeiros. Embora de boa procedência a “negrinha” é pouco ativa, pouco afetiva, burra e muda. Esta conosco há dois anos a as única observação nos corredores é a pergunta: ”que rara raça é essa?”

Há dois meses, como é sabido por quem nos acompanha, fiz a boa e conjunta ação de adotar uma viralata. A intenção momentânea consolidou-se pelo afeto imediato e esperteza da cão, que em nada parecia com a sua irmã diplomada.

Meg, nome que recebeu em função do personagem dos Simpsons, talvez pela personalidade que prenunciava, foi tomando o espaço de forma intensa e amorosa. Intensa pela mania de comer móveis, roer armários, romper cabos de tv, e nunca fazer as necessidades nos locais indicados. Amorosa porque desde sempre dividia com o calor do seu corpo um afeto maior do que o humano.

Meg não tem passado, por certo iria estar na rua não fossem as sensíveis meninas que nos doaram. Meg, como toda criança faz barulho, nem mais ,nem menos, que qualquer das outras raças seletamente toleradas no meu prédio. Sobre ela perguntavam: “late muito?”, ”é daninha?”. Quase tinha que sair escondido pelas caras feias das vizinhas.

Hoje recebi um ultimato, um conselho  resolveu que ela devia sair deste ambiente. Até a imobiliária foi acionada. “Há uma intrusa dentro desta classe…”.

Pena que não posso sair junto, não tenho tempo, nem dinheiro para organizar-me agora em outro espaço, ainda não dirijo, o aluguel esta barato, mas me pergunto, entre chateado e preocupado, se não serei o proximo a ser despejado.

Meg esta bem, acomodada em casa com pátio. Donna ficara mais só e triste. Eu, em breve, espero poder viver em mais adequado logradouro.

2 comentários:

Angélica Lins disse...

É lamentável...Não só pela Meg, mas por saber que os seres humanos não são nada humanos como dizem ser.

Passei situação semelhante aqui.

Beijo

tarciso disse...

Existem inúmeras formas de intolerância e as mais crueis sempre são dirigidas contra as criaturas mais inofensivas e indefesas. Triste!