sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
24 Horas
Mesmo não sendo Jack Bauer, estou completando 23 horas e vinte minutos de trabalho, sem interrupções e corridos. Se em quarenta minutos meu colega não aparecer, sou capaz de entrar em surto e sair atirando gases esterilizadas no primeiro que passar.
O pensamento começa a ficar confuso, ou piora. Iniciou-se com um tipo de enxaqueca, lá pelas duas da tarde, agora, são sete e tanto, no entanto, os dois comprimidos de analgésicos, não deram pausa, apenas trocaram, dor de cabeça por: dor + náusea. Desde o almoço não consigo comer, nem que quisesse teria tempo. Mordo bolacha imaginária, e encontro a língua machucada. Ao lado o copo, sempre presente e cheio, pois, sede, acalmo com água.
Com surpresa –no meio de um ou outro atentado, a maioria por alarme falso- conheci uma prima bastarda, seu marido e um filho pequeno, este de braço quebrado. Ela disse que de mim sabia, eu, nem fazia idéia. Quase a convidei para esticar a conversa, ou dividir o copo, quem sabe sair para uma volta, entender mais de meu tio safado, qualquer coisa para ver a rua e me sentir em um ambiente arejado.
Quando chegar, é certo, que a cadela me mija na entrada, ainda mais que o filho que ficou com ela não é atento que não lhe deixei água, nem comida… e para ele, tampouco, mas este não se atrapalha.
Os minutos vão chegando, perdi a vontade de voltar para casa. Apesar do cansaço, tenho receio de que vá seguir, lá, com trabalhos forçados. Louça suja enchendo a pia, cama desarrumada, restos de bolacha no tapete, tênis no meio da sala. A casa, apesar de ser imóvel, é um elemento vivo que adora algazarra, ainda mais, quando mesmo na minha ausência, outros a convidam para gandaia. Para isso tenho os filhos. O melhor seria esticar a noite em um bar, numa mesa com amigos, quem sabe uns salgadinhos, uma brisa de praia e matar a sede com algo mais do que água.
Minha cabeça dói, mais do que há uma hora, sou avisado que tem gente para ser atendida. Mesmo com certa delicadeza, porque quem chama, meu humor conhece, fico mais irritado. Primeiro penso, “onde deixei as gazes?”, melhor as contaminadas, mas sublimo pensando no relógio e na breve possibilidade de folga.
Amanhã cedo, retorno, nova jornada. Vou deixar a saída como programa pendurado. Mais fácil é esquecer da casa, que se esculhambe e olhos fechados.
Falta cinco minutos, e o colega,por enquanto, nada.
Ouço o som da porta, o tom, é de que serei chamado. Já estou com o copo em riste, o líquido no chão derramado, melhor se tivesse encontrado as gazes, enfim, agora é tarde… remeto o copo alado, espalho vidro quebrado!
sábado, 13 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
A cerca desta foto
Neste momento, são sete horas e trinta e cinco minutos da manhã, aqui estou, a esperar carona para a terceira atividade laborativa do dia, que iniciou-se um pouco antes da seis da madrugada com um telefonema de pedido de socorro.
A temperatura é de 27 graus, alta para o horário, o que anuncia um calor, se não igual, muito próximo ao da semana passada que chegou aos trinta e nove traços no ápice do derretimento. Como sei que não terá chuveiro no trabalho, que se emenda a este, que segue do meio dia de hoje, até as quatorze horas de amanhã, e que vou chegar empoeirado e úmido, estou vestindo um modelo despojado, largo e leve para que o suor me grude o mínimo possível.
Quem me pega aqui é uma Kombi com nove, apertados, lugares, seis ficarão ocupados. Por ser desconfortável e barulhenta, explica-se os fones pendurados e a seleção de músicas bem agitadas, não para dormir, mas para abafar o ruído da lataria na estrada, boa parte de terra, e a fala, sem pausa, desinteressante e irritada dos colegas.
Os outros cinco ocupantes, além do motorista, que desde ontem esta com o dedão do pé quebrado, mas que não quis ser afastado porque esta trabalhando em horas-extras, aumentando nossa insegurança por dirigir descalço, todos os demais são mulheres.
Uma tem como companheiro, alguém, que apesar dos vários meses de relatos, até agora não sei o nome que é pejorativamente chamado de “o velho”. “O velho”, deve estar beirando os cem, e tem uma doença terminal que não se acaba nunca, já ouvi, no intervalo das agitadas músicas, diagnósticos como: câncer de pulmão, duplo; enfisema no cérebro; labirintite galopante e gordura hidrogenada nos ríns, no coração e “nos fígados”. O que resume é que conheço toda ladainha de sofrimento que nunca se completa nos curtos 45 quilômetros, ou cinquenta e tantos minutos de sacolejante martírio. Também é dela o fruto gay assumido, filho do primeiro casamento, motivo até a pouco de muito sofrimento, mas agora aceito, pelos presentes e graças que vem recebendo dele e do também velho e mais abastado companheiro. Como afeto nãos e compra de “o velho” a maior preocupação é efetivar em documento a relação instável de três anos que lhe garanta: parte da casa, a guarda dos bichos, e um fuca, que pelo que parece já está estacionado em seu nome.
Das demais companheiras de viagem, uma compartilha a terapia do mp3 e não quase não fala, mas tem um péssimo hábito: ficar comendo salgadinhos fedidos em tão indigesto horário. Nestes casos, procuro manter o mais distante meu delicado olfato, vendo-me obrigado, seguidamente, a arriscar o pescoço o pendurando para fora em uma das pequenas janelas do antiquado utilitário.
A terceira, com quem mais me identifico, troca comentários via SMS, comigo, sem a percepção dos demais e, por vezes, mesmo com algum enjôo o ou náuseas, engasgo-me em risos disfarçados.
A última, e mais isolada, fica restrita a um mundo imaginário e arrota, sem regurgito, muitos bens e viagens, que sequer condiz com a realidade de quem precisa repetir diariamente esta viagem. Entre ela, e qualquer uma das demais, mais do que os buracos do estofamento, surge um arrogante abismo social, irreal e não justificado.
Ainda da foto, a garrafa de coca-cola, que esta ali porque é coca-cola, porque esta calor e porque o café das seis a esta não mais desperte nada.




