Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Preconceito

Desde que perdeu o centro de gravidade, equilibra-se com as pernas levemente afastadas. Sabia que era avô de algum amigo, não sei qual, nem de que tempo, mas qualquer avô de amigo, a esta altura, é um sobrevivente, quase nada.

Chega no balcão, de pernas abertas,  e pede dois ou três pães cacetinhos – como chamam o pão francês nesta região – e mais dois de queijo, que antes, pressiona para ver se estão novinhos. Não costuma ser metódico, já cruzei com sua sacola e carteira no final da manhã e no meio da tarde. Pensei, como todos os velhinhos que vão as compras desacompanhados, que era deste modo que vivia, só, com um cão ou felino caduco que mijam pela casa.

Comentam que foi escriturário, funcionário público do tempo que isso era respeitável, um dândi sem ser da casta nobre da cidade, mas que com educação, boa conversa e vaidade juntava a si o melhor da sociedade. Sei que teve filhos espalhados, mas mesmo insistindo na memória não sei qual amigo, legítimo ou bastardo, foi gerado desta prole.

Caminha como quem carrega um fardo. Deve morar por perto, mas  nunca tive esta curiosidade.

Dois ou três pães, mais os de queijo, talvez um cachorro ou um gato. Sinto cheiro de café quente e o som de um rádio ligado.

Olho para o lado, alguém abre a porta. Bela casa, bem cuidada, assim como a senhora - para ele uma moça - que lhe aguarda. Um beijo nos lábios desfazem o preconceito e o imaginário. Uma vez janota, o tempo não desbota.

3 comentários:

Fernanda Souza disse...

Obrigado pela indicação do livro do Kadaré, excelente!
O do Altair não encontrei aqui no Rio, mas semana que vem estarei em Porto Alegre.

tarciso disse...

Nossa, vc sempre surpreendendo com a qualidade dos textos e o cuidado com a embalagem... a plástica do site tá muito bonita! E a crônica é daquelas de sabor inigualável, remetendo a cheiros e cores de um aprazível fim de tarde!

tarciso disse...

Tentei comentar ontem mas deve ter dado algum tilt informático... De toda forma quero dizer que o teu espaço aqui tá com uma estética pra lá de bonita e esta crônica do quotidiano revela o quão enganoso podem ser nossos juízos precipitados, algumas vezes...