Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

sábado, 20 de março de 2010

Terceiro Mundo

flores Pediram para que marcasse hora, pois agora, era preciso aviso prévio. Ordens da chefe, nova senhora. Eu tinha pressa e assim fui recebido até sentar-me sem cerimônia.

Por um momento, até que iniciasse a fala, esperei que a anciã despachasse o que faltava. Seria o próximo.

Observei. Das paredes descascadas, texturizadas pelo mofo, várias formas abstratas. Entre nuvens e cabras, juro ter identificado um Cristo. Faltavam placas no forro, muitas, e por entre as que restavam, como comidas e em pedaços, fixei a atenção na possibilidade de ver passar  um roedor medonho. Então, nem atentei, em perceber que me falavam. Depositei o foco ao nada. Queria apenas dizer que dali iria embora, que não sentia mais, aquele,  como um lugar próprio, mas impróprio. Porém, a educação e a ética, o respeito e o medo, e mais o fato de ter um rato caindo sobre minha cabeça, embotaram meu curto e despreparado discurso. Por um momento.

Começo a rir, sem muito disfarce. A mão, escondendo a boca e os olhos, para não ver o obvio: Estava dentro de um filme de terceiro mundo. A cadeira, a frente, de espaldar alto e  assento baixo, escondiam atrás da mesa o corpo curvo da mulher pálida  de cabelos brancos, a quem, até ali, deveria chamar de dona, patroa, ou senhora. O riso, foi imaginar as flores fugindo do estampado do vestido, exageradamente colorido, espalhando-se sobre os papeis e relatórios; pela tábua, derrubando as xícara manchadas de café fraco e batom forte; algumas, rosas e tulipas tortas, mergulhando fundo no lixo, transbordado dos seus, aos meus pés… mais afastados;  outras, como cravos, terminando em coroa -de pêsames-,  Nossa Senhora! Entristeci, no entanto, o humor, ao percebe-la enraizada - pena, vê-la, com os desmandos e  segredos- junto ao que a instituição mal guarda.

Quem sabe uma advertência -como resposta- e em minutos estaria dali liberto. E pensar que pretendi acabar assim meus dias, culpa de um pai que burocratizou a vida. Mal exemplo, pelo menos por ora.  Nada esta no lugar devido, e nada devo a este lugar sombrio. A velha entorta, também, a boca, e deixa escapar entre a razão, fumaça –pensei que vício aqui fosse proibido. As rosas acinzentaram-se e perderam a  graça, nenhum morcego voou  pela sala, nenhum gambá  sobre nossas costas.

Preciso, logo,dar um fim ao assunto, ser mais econômico e breve, até Mazzaropi deve estar a espera:

“Vim para dar adeus. Adeus sem aviso prévio.”

Um comentário:

celestica disse...

Que Maravilha!
Entrei na cena e, à espreita, num cantinho, cheguei a sentir o cheiro do café e do cigarro, misturado ao perfume comprado no freeshop. Moscas anunciando a chuva, além do 'tudo' às moscas, do teto ao piso, dos papéis aos móveis, do servidor ao pobre coitado que amarga desde a madrugada na esperança de não ouvir novamente "já acabaram as fichas"!