Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Corporação

banana A nota dizia: “haverá mudanças”.

Os colegas, que não costumam ler circulares, não observaram, da sucinta frase, o conteúdo radical que a mensagem  omitia.

Começou no mobiliário, que apesar de ser o mesmo, apareceu  diferentemente disposto para permitir o livre transito do sucesso e da fortuna -Feng Shui, encomendado pelo novo diretor, via internet, de um sábio chinês que atendia via Vila Madalena. Ficara feio, mas confortável, apesar da bananeira gigante, que inclinada do vaso, dificultava a visão de nossa única e esguia janela. Também não entendi o galo de madeira crua, enorme, rústico e mal cheiroso, que, pousado em minha  mesa, deslocara o monitor do computador para a antiga mesinha do café, líquido agora proibido. Este será o ano da ave macho, continuou o gerente em sua preleção de boas vindas, e um elemento rude como este vai atrair crescimento,   prosperidade e otimismo. Seguimos ouvindo as normas e sistemas. O operacional, do servidor de rede, não tem mais janelas -é Linux, em edição personalizada, que troca beleza e atrasa produtividade.  Voltando a bananeira, talvez também seja mais por implicância, ali  jogada  serve mais para dificulatar  quem gostava de espiar para a avenida.


A crise era persistente, embora os lanches liberados, desde que, previamente determinados. Para mim sobrou cardápio indiano, do primeiro ao décimo dia -Tarka Daal, parecido com comida umida de gato-  energética, tão barata quanto exótica, grudenta e anafrodisíaca.


Suprimiram as divisórias, mas nos mantiveram em turmas, talvez para que não houvessem rebeldias. Fiquei com quem não gosto, isolado das meninas, pior, trouxeram animais para  sofregar as alegrias -Amon e Iris, raros gerbos egípcios, nada mais do que ratos, a atiçar minhas alergias .


Uma prece introdutória, de uma seita desconexa, mantra de força sonora repetida como: "terei sucesso", "cadê meu queijo", "deixa que me economizem".


Não há mais lâmpadas, apenas luz zenital e azimute, muitas fendas e quebras nas paredes, depois, só velas a prolongar o expediente.

Não acreditei, nem levo fé, “haverá mudança”, era só o que dizia.

Pubicado originalmente no Camafunga em 10/05/2005

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