Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A cerca desta foto

postoquente

Neste momento, são sete horas e trinta e cinco minutos da manhã, aqui estou, a esperar carona para a terceira atividade laborativa do dia, que iniciou-se um pouco antes da seis da madrugada com um telefonema  de pedido de socorro.

A temperatura é de  27 graus, alta para o horário, o que anuncia um calor, se não igual, muito próximo ao da semana passada que chegou aos trinta e nove traços no ápice do derretimento. Como sei que não terá chuveiro no trabalho, que se emenda a este, que segue do meio dia de hoje, até as quatorze horas de amanhã,  e que vou chegar empoeirado e úmido, estou vestindo um  modelo despojado, largo e  leve para que o suor me grude o mínimo possível.

Quem me pega aqui é uma Kombi com nove, apertados, lugares, seis ficarão ocupados. Por ser desconfortável e barulhenta, explica-se os fones pendurados e a seleção de músicas bem agitadas, não para dormir, mas para abafar o ruído da lataria na estrada,  boa parte de terra, e a fala, sem pausa,  desinteressante e irritada dos colegas.

Os outros cinco ocupantes, além do motorista, que desde ontem esta com o dedão do pé quebrado, mas que não quis ser afastado porque esta trabalhando em horas-extras, aumentando nossa insegurança por dirigir descalço, todos os demais são mulheres.

Uma tem como companheiro, alguém, que apesar dos vários meses de relatos, até agora não sei o nome que é pejorativamente chamado de “o velho”.  “O velho”,  deve estar beirando os cem, e tem uma doença terminal que não se  acaba nunca, já ouvi, no intervalo das agitadas músicas, diagnósticos como: câncer de pulmão, duplo; enfisema no cérebro; labirintite galopante e gordura hidrogenada nos ríns, no coração  e “nos fígados”. O que resume é que conheço toda ladainha de sofrimento que nunca se completa nos curtos 45 quilômetros, ou cinquenta e tantos minutos de sacolejante martírio. Também é  dela o fruto gay assumido, filho do primeiro casamento, motivo até a pouco de muito sofrimento, mas agora aceito, pelos presentes e graças que vem recebendo dele e do também velho e mais abastado companheiro. Como afeto nãos e compra de “o velho” a  maior preocupação é efetivar em documento a relação instável de três anos que lhe garanta: parte da casa, a guarda dos bichos, e  um fuca, que pelo que parece já está estacionado em seu nome.

Das demais companheiras de viagem, uma compartilha a terapia do mp3 e não quase não fala, mas tem um  péssimo hábito: ficar comendo salgadinhos fedidos em tão indigesto horário. Nestes casos, procuro manter o mais distante  meu delicado olfato, vendo-me obrigado, seguidamente, a arriscar o pescoço  o pendurando para fora em uma das pequenas janelas do antiquado utilitário.

A terceira, com quem mais me identifico, troca comentários via SMS, comigo, sem a percepção dos demais e, por vezes, mesmo com algum  enjôo o ou náuseas, engasgo-me em risos disfarçados.

A última, e mais isolada, fica restrita a um mundo imaginário e arrota, sem regurgito, muitos bens e viagens, que sequer condiz com a realidade de quem precisa repetir diariamente esta viagem. Entre ela, e qualquer uma das demais, mais do que os buracos  do estofamento, surge um arrogante abismo social, irreal e  não justificado.

Ainda da foto, a garrafa de coca-cola, que esta ali porque é coca-cola, porque esta calor e porque  o café das seis a esta não mais desperte nada.

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