sábado, 29 de agosto de 2009

Flash

Pedi para que me chamassem quando fosse o melhor momento. A música entrecortada incomoda, assim como não ter o que fazer agora. Acostumei-me a trabalhar todas as tardes, estar livre me deixa desconfortável, tanto quanto, este sapato moderno que resolvi comprar para ver se ficava mais a vontade. Engano, meus passos são tão duros que independem de proteção ou veste, que seja, então, apenas para bonito ou para enganar o tempo. Penso, até que me acordem, que devia ter beijado mais antes das rugas, que poderia estar além do olhar para os pés ou no aguardo para ser despertado.

Parece que chegou a hora, o som esta contínuo, embora, esta não seja minha estação favorita. Li trechos de um livro novo, e nele o pensamento da tantas voltas que chego a acreditar, que não é preciso entender tudo o que se designa como arte, apenas sentir e deixar-se ser levado.
Tenho um peso, agora nas pernas, e uma vontade de vence-lo para melhor aproveitar o dia.

Ainda não foi desta, melhor virar de lado e seguir viagem, pulo capítulos no ritmo da música, sinto ter os pés inchados e as pernas duras, mas aceito um pouco mais a falta de melhores oportunidades.

sábado, 15 de agosto de 2009

Delivery

"Com licença, foi daqui que pediram calma?

Nossa empresa não consegue mais dar conta de tanta entrega exótica. Ontem nos pediram tempo, mas isso é mercadoria escassa, sem pronta entrega quando chega já é tarde. A gente tenta avisar que é bobagem porque depois de pedir um tempo não tem mais volta, o tempo não volta, as pessoas não esperam, e a fila anda. Depois, a gente nem sabe direito que uso vão fazer com o tempo, a maioria aproveita mal, acaba que não vale nada.
Também há quem peça arrego, nossa, como pedem arrego. A primeira vez tive que ir ao dicionário: "ajuda, implorar perdão". Como carregar isso? Será que cabe nas costas? Um sujeito com fama de gay foi encontrado, no colo da secretária, a mulher, grávida de seis meses, entra de surpresa para mostrar o ultrassom e confirmar para o marido, esperava um menino. Agora é ele quem espera, arrego. E tem arrego para banco, para empresa, para família. Na linha financeira, depois da crise, tem gente pedindo arrego por atacado. "Olha me manda uns vinte, uns para financiamento, outros para cheque especial, para aluguel atrasado, para amigo irritado..." Tem arrego recorrente, mas esse não tem boa aceitação. Eu aviso, se for para usar tem que ser de uma tacada. Para chefe tem um kit, acompanha pinico. Pedir pinico saiu um pouco de moda, é quase a mesma coisa que pedir arrego, mas em caso de levar mijada...
Pedir água, não é literalmente líquido. Já me atrapalhei e mandei galão na hora errada. Pedir água é desistir, como abandonar o barco. Este é um pedido extremo, que as vezes vem depois do arrego mas pode ser ainda antes do tempo. Mas...
Foi daqui que me pediram calma?"

Garagem


Garagem, upload feito originalmente por Camafunga.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Frio


##, upload feito originalmente por Camafunga.

No ordinary love

Desde cedo vinha com dor de cabeça, mas aquele devia ser um dia mais tranquilo. O carteiro esqueceu meu endereço ou estou mais organizado do que antes. A única missiva foi o aviso de que havia chegado uma encomenda na posta restante. A esta altura nem lembro mais onde fica o correio nesta cidade, mas não lembro também o que almocei agora a pouco, e isto sim me incomoda, como não conseguir evocar o nome de alguns amigos não tão distantes. Mas, volto a cefaléia. Começou como uma fisgada no lado direito depois passeou sobre os olhos até o outro lado alojando-se na mandíbula. Isso, atrapalha meu senso, tanto, que acabei atendendo a todos os telefonemas da manhã como se fossem intransferíveis. Meu cachorro tem cara de leitão e não entende porque não brinco o tempo todo, retribui com careta e só não coloquei a lingua para sua expectativa porque, mesmo só, me sentiria ridículo. As ligações são de banco me oferecendo um cartão sem limite, quando deveria ser sem crédito, uma moça perguntando se eu não tinha emprego para lhe oferecer, oferecida, podia ser de babá a faxina, talvez meu filho, adolescente, até gostasse, mas estou de cara com seu rendimento escolar e as saidas sem volta pelas madrugadas. Ela, sempre ela, insiste preucupada, depois de perguntar porque demorei para atender o telefone, se eu tinha ficado bem sobre ontem a noite. Quis ser grosseiro, mas, como não tenho mais identificador de chamadas perderia na grosseria, podia dizer ter me atrapalhado em puxar as calças ou na despedida de outra pessoa alimentando o imaginário doentio e ciumento. Bem, que cada um faça a sua parte, hoje sou telefonista e portador de enxaqueca. O vinho, foi ele a unir as duas passagens, de baixa qualidade, e doce, não foi suficiente para aquecer o momento, assim como as velas que eram nanicas e apagaram ainda nos preâmbulos. Ela, sempre ela, fala tanto de seus problemas cotidianos que faz pulsar minhas veias mais do que o álcool etílico e o cheiro da benzina que usei para limpar o resto de parafina que escorreu da mesa à cama da minha cadela. O telefone toca novamente, o tinido repercute no cérebro que não quer mais discutir a relação nem os fatos. O que foi mesmo que encomedei pelo correio? Tomara fosse uma cabeça nova, ou melhores idéias, mas não, lembrei, foram velas, místicas e milagrosas, na posta, a aposta de dias mais tranquilos.