Quando começo com frase solta me perco para depois me achar.
Vamos ver...
A frase: Vamos lá garota! Vamos lá mulher!
O Caminho: As bolsas estão arrumadas, tem sacola de tudo que é cor e formato. Umas são bacanas, vieram de viagens a lugares exóticos como o freeshop do Uruguai, outras são do supermercado da esquina, no tempo que morava na CohaPrin. Será que ainda chamam esta cidade de Princesa?
Vamos lá mulher, o carro esta cheio e ainda tenho que pegar a sogra, aquela que esqueceu que é viúva, e vai ficar reclamando do marido todo caminho.
Temos que passar na casa da Marisa para ver se ela vem regar as plantas e dar de comer aos gatos. Onde eu estava com a cabeça quando alberguei estas aberrações, o macho, leva o nome do meu pai, e a fêmea, que é manca de nascença, apesar de se chamar Ruth, eu chamo pelo nome daquela que agora deve estar reclamando aos espíritos por estar esperando na frente de casa. Deve ser por isso que nunca alimentei os bichos, nem dei muito carinho.
Odeio viajar sem juntar dinheiro antes, mas, se vou esperar, só saio de casa em véspera de décimo terceiro. Ainda bem que vamos ficar em casa de amigos, nem tão amigos, afinal, até hoje não esqueço o que me disseram sobre o fato de não podermos ter filhos, mas, antes assim, afinal onde enfiaria mais crianças no meio de tanta dificuldades me sair de casa. Entre os sacos?
Vamos lá criatura! Não enxergo muito bem para dirigir a noite e, assim como a paciência, estou com os óculos vencidos. Pura preguiça meu amigo/irmão, se formou em oculista e já cansou de me mandar passar na clínica dele. Por falar em dinheiro, não sei onde deixei minha carteira, nem a chave da casa. Deve ter caído num dos sacos ecológicos da firma onde guardo minhas notas.
A casa é pequena mas tem tanta janela que vou sair pensando que deixei algo aberto.
Mulher, vamos embora, que já estou desistindo!
Queria mesmo era ficar sozinho na cidade e manda-las junto com as plantas e gatos para o Egito ou Etiópia, mas separação a esta hora é inviável, mas, pode ser a saída, se vou esperar pela grana, talvez só na véspera da aposentadoria.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Conto
Por onde começar?
Primeiro a luz aqui não é boa, dá reflexo na tela. Depois, minhas mãos estão suadas, fica desagradável digitar assim. Os olhos, estão cansados por tanto tempo sem ver o sol nestas paredes brancas, e a cadeira, fica baixa e desconfortável.
Apaguei todas as lâmpadas fluorescentes. Achei no fundo da mochila um óculos de aproximação e ja estou sobre uma almofada, mas o sol, deixo para amanhã quando sair deste recinto. Agora, é só as mãos, e ficarei pronto.
A história:
Marina chora e reclama por insatisfação de uma vida que não era a mais desejada. Fala horas a mesma coisa, repete o que já deve ter dito a outros como se fosse a prima fala. Não quer voltar para casa, a origem de tanta angústia, nem ficar na rua para enfrentar o público, esta com raiva do mundo.
Salestiano sai da escola pensando que amanhã tem volta, não entende quem criou e mantém este rotina, mas é jovem demais para saber como rebelar-se, então, apenas deseja ficar doente para poder permanecer em casa.
Marina, mais uma vez chega antes do tempo, tão cedo, quanto lhe disseram que era para ter tido o primeiro filho. Faz café isento de adoçante e, sem perceber, reclama da mãe amarga.
Tem roupa para ser arrumada, tem lixo jogado nos pratos, farelos por todos os lados. Seu sonho ja fora ter sido órfão, agora, ter menos responsabilidades, ou, pelo menos do pouco, ter com quem dividi-las.
Tem um gato manco, um banco pintado de branco, e uma coleção de almofadas.
Salê prefere o apelido, a avó o faz padecer de vergonha desde o primeiro dia de aula. "O menino vem do norte?", "Acaso é filho de Bahiano?". Não, sou Salestiano, promessa de quimbanda daquela velha que não me queria. Foi ela quem envolta a rezas de todas as preces praguejou não ter conseguido te-lo evitado. Ela que continua lhe vendo chegando e fingindo nunca te-lo notado.
Há mais mofo do que piso por debaixo dos armários, além de onde a lingua do felino alcança os farelos crescem como bolos, o cheiro só é suportável porque rebaixa a escuridão das peças ao olfato e cega como ao bicho manco. O gato, que não tem nem apego nem tem nome apela pela água no prato.
Marina espera na esquina, fuma seus pensamentos em cada oportunidade alheia que passa. Lamenta sua roupa gasta, a pouca idade e maternidade. Salê permanece no quarto, o gato limpa o suor dos meus dedos. E eu, sem saber, me sinto mais confortável
Química
Vai chegar o dia que tudo vai ser explicado cientificamente, como as emoções que são na verdade uma mistura de enzimas que estimulam ou deprimem, juntam ou afastam, desejam ao abominam, fazem agir ou impõem a cautela.
Desta forma se explicam as diferenças de temperamento nas espécies, e da diversidade que temos na nossa. Fico sem graça a cada descoberta que leio. Amor é igual a ocitocina, fidelidade é questão de recetores, ódio e falta de humor é noradrelanina, dopomina, e outras proteínas. Antes, me sentia melhor que muitos, um bem aventurado, homem de boa vontade, agora, apenas carrego um laboratório eficiente, nada que um antidepressivo ou um modulador não possam por por terra. Perdi um pouco o tesão pela conquista ao saber que o mesmo hormônio que me estimula ao amor filial ou afetivo-sexual pode ser liberado quando afago um cachorrinho.
Bom para os que não se controlam, para os depressivos, compulsivos, agitados, insônes e outros neuróticos. Ruim para quem só queria manter a poesia de viver livre de tanta alquimia.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
terça-feira, 26 de maio de 2009
Cinismo
Um óculos só não basta. Caminho para ver se consigo dirigir as idéias, mas, são elas que me levam.
Até a pouco evitava esta rua, ela parecia mais triste. Percebo que a roupa que uso não é tão nova, deve ser porque tenha voltado, também, ao corpo antigo.
Tenho visto pouco o que interessa pois troquei a emoção pelo palpável, por isso me importo mais com o que ganho do que com o que foi perdido. Caminho, hoje, para ver se me encontro, antes para ver se esquecia, mas os pensamentos, tão independentes, seguem justo em direção contrária. Aqui, ao invés de carros e burburinho constante, me vejo do outro lado da calçada, não quero, mas sinto a alegria perdida de um tempo onde me incluia.
Nas idas e vindas, a esperança de algo que durasse, a vontade de ouvir o que me enjoa, a verdade das conquistas quando ainda havia o que ser desafiado.
Disse, desde o primeiro dia, sou feliz e realizado, sinto, que venha insitindo para manter-me convencido que não possa ser justo o contrário.
Um óculos só não basta, nem a visão de otimismo e de extrema esperança. Um óculos só não basta para evitar tanta saudade.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Considerações da MOrsa
Mas como viver sem comunicação, então volto a pensar sobre o celular.
Adoro me relacionar, mas também valorizo meu controle sobre isso. Ligo o micro e me jogo em ferramentas sociais além do que poderia fazer no convívio real, mas desligo quando me encontro. Me abasteço na troca de informações e afetos enquanto a tecla brilha, e deu. Adoro os que me cercam mas odeio tudo que é invasivo, e percebo que pago, e caro, para ser monitorado, então, será que preciso mesmo deste instrumento?
Adoro me relacionar, mas também valorizo meu controle sobre isso. Ligo o micro e me jogo em ferramentas sociais além do que poderia fazer no convívio real, mas desligo quando me encontro. Me abasteço na troca de informações e afetos enquanto a tecla brilha, e deu. Adoro os que me cercam mas odeio tudo que é invasivo, e percebo que pago, e caro, para ser monitorado, então, será que preciso mesmo deste instrumento?
(o resto)
Recebi o laudo depois de muitos dias, escrito a mão, inconcluso, inútil: "ausência de anormalidades", mesmo que o verso fosse um papel sujo reaproveitado, lixo como a dor da paciente, riscos de um exame de EEG, como mostra a imagem, talvez da disritmia cerebral do SUS local.
"Ausência de anormalidades" posteriormente e facilmente identificadas no pré-operatório que seguiu-se, como urgência pelo tempo perdido.
"Ausência de anormalidades" posteriormente e facilmente identificadas no pré-operatório que seguiu-se, como urgência pelo tempo perdido.
domingo, 10 de maio de 2009
Domingo
Hoje é domingo, tem lei do silêncio no meu prédio, na minha rua, em metade da cidade mas não consigo descansar com o barulho de máquinas há horas.
Hoje é dia de falas bonitas, mas no encontro com os caminhantes apenas a falta de assunto, a mesma que dispensei no curto almoço de econômicas palavras com meus pais. Quero rua e estou sem companhia, quero paz mas não acalmo a ansiedade por algo novo.
Hoje é domingo e há zoadas de máquinas internas a meus ouvidos, ecos no oco da falta de diálogo e uma agitação que impede que aproveite. O sol de outono é mais triste que o de outubro, os dias são curtos e parecem antecipar a morte, a morte de um dia a somar-se a outros domingos até tirar a graça de boa parte de uma existência.
Hoje é dia de falas bonitas, mas no encontro com os caminhantes apenas a falta de assunto, a mesma que dispensei no curto almoço de econômicas palavras com meus pais. Quero rua e estou sem companhia, quero paz mas não acalmo a ansiedade por algo novo.
Hoje é domingo e há zoadas de máquinas internas a meus ouvidos, ecos no oco da falta de diálogo e uma agitação que impede que aproveite. O sol de outono é mais triste que o de outubro, os dias são curtos e parecem antecipar a morte, a morte de um dia a somar-se a outros domingos até tirar a graça de boa parte de uma existência.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Memória
Não vou esperar ter mais dinheiro na carteira. A noite esta agradável, o movimento dos carros estimula e penso se é a hora ou não de atravessar a rua.
Na bússola da memória acabo chegando na mesma pizzaria daquele tempo. Corro então para não ser atropelado, afinal estou de volta em terras diferentes.
Um viaduto, um túnel, um grupo que passa gritando que estou no lugar certo. Adoro a escuridão das praças misteriosas, o olhar distante mas empolgado de uma aventura moderada apenas pelo bom-senso.
A porta estava fechada, as cadeiras viradas e o pó tomava conta de todos os cantos. Fingi não ter sentido a dor do abandono, éramos casais que em breve, também, estaríamos em outros endereços. Devia ter pressentido, a alegria era apenas um ensaio para outras vidas. Retorno agora numa via mais agitada, cruzam além da velocidade permitida e recuo. Não vou esperar ter mais dinheiro na carteira, pago o alto preço pelo resgate destes pensamentos.
Na bússola da memória acabo chegando na mesma pizzaria daquele tempo. Corro então para não ser atropelado, afinal estou de volta em terras diferentes.
Um viaduto, um túnel, um grupo que passa gritando que estou no lugar certo. Adoro a escuridão das praças misteriosas, o olhar distante mas empolgado de uma aventura moderada apenas pelo bom-senso.
A porta estava fechada, as cadeiras viradas e o pó tomava conta de todos os cantos. Fingi não ter sentido a dor do abandono, éramos casais que em breve, também, estaríamos em outros endereços. Devia ter pressentido, a alegria era apenas um ensaio para outras vidas. Retorno agora numa via mais agitada, cruzam além da velocidade permitida e recuo. Não vou esperar ter mais dinheiro na carteira, pago o alto preço pelo resgate destes pensamentos.
domingo, 3 de maio de 2009
Caminhada
Morreram, Zoraide, Irema e Jacira, só mulheres no obituário pendurado na porta do jornal centenário. Caminho.
Desvio de copos e latas amassadas, baganas por todos os lados. Amantes recém conhecidos se despedem na descida dos carros como resíduos de um amor não consumado.
O guarda da praça conversa com os cães sobre a solidão de seu trabalho, ri alto por algo que possa ter presenciado. Riem jovens fumando maconha escondidos no meio do parque, disfarçam o frio que resiste ao sol que ainda é pouco. Não sou o único ao trabalho. Moças olham para baixo segurando, fora do corpo, seus agasalhos.
Pastores de terno e suas pastas, apertam passos apressados, não há pastoras, tempo, nem piedade.
Caiu sereno, mas também houve violência, manchas rubras de uma briga diluem-se sobre a pedra molhada, vejo cacos e um pingente, pedras soltas por acidente.
Esqueceram o jornal da véspera na soleira da bodega, quase roubo de presente, mas evito nota passada. A menina chora no ombro de outra menina, deve ter lido o obituário.
Desvio de copos e latas amassadas, baganas por todos os lados. Amantes recém conhecidos se despedem na descida dos carros como resíduos de um amor não consumado.
O guarda da praça conversa com os cães sobre a solidão de seu trabalho, ri alto por algo que possa ter presenciado. Riem jovens fumando maconha escondidos no meio do parque, disfarçam o frio que resiste ao sol que ainda é pouco. Não sou o único ao trabalho. Moças olham para baixo segurando, fora do corpo, seus agasalhos.
Pastores de terno e suas pastas, apertam passos apressados, não há pastoras, tempo, nem piedade.
Caiu sereno, mas também houve violência, manchas rubras de uma briga diluem-se sobre a pedra molhada, vejo cacos e um pingente, pedras soltas por acidente.
Esqueceram o jornal da véspera na soleira da bodega, quase roubo de presente, mas evito nota passada. A menina chora no ombro de outra menina, deve ter lido o obituário.
Diário da MOrsa
sexta-feira, 1 de maio de 2009
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