Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Centro Espírita

A primeira vez que apareci não me acompanhei da confiança, apenas tinha sido convidado. Já fui menino de fé mas por outras crenças. Cristão praticante, praticamente um coroinha, toquei violão por tempos no “folclore” da minha paróquia. Lá conheci, com o perdão da palavra, os intestinos da Igreja, mas eu era muito jovem e tive todo tempo para poder reavaliar os dogmas antes que me entregasse a culpa e o medo. O padre era desportista, menos mal que era este seu maior vício, além do de dedicar-se a uma mesma ovelha por muitos e muitos anos, Dona Maria, uma santa. Ele rezava a missa de tênis e com os calções por debaixo da batina, faltando apenas a camiseta da associação que enfiava as pressas depois da homilia, quase sempre atropelada, no mesmo ritmo do tempo que faltasse para as partidas agendadas. Aprendi os seus sinais e muitas vezes preenchia suas escapadas com nossa música assim como uma estação de rádio onde o locutor desaparece. Depois vieram as observações mais contundentes que confundiram o que deveria ser bondade com os benefícios próprios e desisti de tudo até tornar-me um agnóstico. Foram anos sob a luz de ciência e razão que também não explicam nada, a chegar na preguiça do cada vez mais complexo entendimento. Bastava ter estudado tanto de céluas e hormônios para ter que tomar tempo com teorias do acaso ou da física quãntica, não ter fé da trabalho, e depois, o tempo foi ficando curto frente a sobrevida, mais incerta do que a verdade da morte, então resolvi aceitar o convite.

Estavam todos de branco, entre caboclos e senhores mais sérios decobri que era um ponto neutro quase ecumênico que misturava “mesa banca” ( não vi nenhuma ali) e umbanda. A ausência de música decepcionou, lembrei Clara Nunes, quem sabe ouvisse algo do Martinho da Vila, minha cultura africana é reduzida, mas ja haviam me dito que, como espírito, eu devia me dedicar menos ao corpo, a esta altura, tão judiado. Diziam que eu era um espírito velho, ja tinha sido judeu por várias passagens, quem sabe um sábio, e que tudo que me envolvia levava a crer que esta seria uma de minhas últimas viagens. Nunca dei tratos à imaginação, mas a presença destes pensamentos justificavam, entre outras coisas, minha relação com dinheiro e a de não me organizar para um futuro muito distante, para que, se não precisaria mais de passaporte? Mas isso foi antes, antes de aceitar este convite.

Estavam todos de branco, alguns homens pareciam usar saias, não duvidei que algum deles esconderia um calção de futebol ou uma sunga para um banho, já estavam descalços. Fui levado a mais velha, a mais acabada. Talvez ja tivesse de fato visitado em loco o outro lado. Fui banhado com um unguento etílico de aroma forte, pensei que fosse alcool iodado, quem sabe tivesse entrado na fila errada e iria ser operado, li algo sobre um tal de Fritz que fazia tudo as pressas e sem assepsia ,mas nem deu tempo para o medo, entorpecido, acabei por responder que não queria. “O que meu filho quer aqui?”. Ia comentar que havia sido convocado, mas o ente disse ter me reconhecido. Quem? Nunca tinha visto aquela idosa nem seus cabelos emaranhados, teria percebido pelo menos pela falta de os dentes. ~”Não esta lembrado de mim meu filho?”, “Mas a velha te conhece…”. Disse que ha muito me esperava. Repetiu a outras vozes que eu seria um espírito antigo, muito antigo e que estava ali apenas para um resgate. Senti o peso da promissória da mesma forma que recebo os telefonemas dos bancos. Estava ali a procura de paz e sou cobrado! Recebi os passes e abraços e sai com uma certeza: declinar qualquer outro chamado. Mas voltei, achei melhor entrar, pelo menos no outro mundo, com o saldo equilibrado.

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