Street photography, olhar atento e uma máquina fotográfica a mão, porque nunca se sabe o que pode passar pela frente.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

No ordinary love

Desde cedo vinha com dor de cabeça, mas aquele devia ser um dia mais tranquilo. O carteiro esqueceu meu endereço ou estou mais organizado do que antes. A única missiva foi o aviso de que havia chegado uma encomenda na posta restante. A esta altura nem lembro mais onde fica o correio nesta cidade, mas não lembro também o que almocei agora a pouco, e isto sim me incomoda, como não conseguir evocar o nome de alguns amigos não tão distantes. Mas, volto a cefaléia. Começou como uma fisgada no lado direito depois passeou sobre os olhos até o outro lado alojando-se na mandíbula. Isso, atrapalha meu senso, tanto, que acabei atendendo a todos os telefonemas da manhã como se fossem intransferíveis. Meu cachorro tem cara de leitão e não entende porque não brinco o tempo todo, retribui com careta e só não coloquei a lingua para sua expectativa porque, mesmo só, me sentiria ridículo. As ligações são de banco me oferecendo um cartão sem limite, quando deveria ser sem crédito, uma moça perguntando se eu não tinha emprego para lhe oferecer, oferecida, podia ser de babá a faxina, talvez meu filho, adolescente, até gostasse, mas estou de cara com seu rendimento escolar e as saidas sem volta pelas madrugadas. Ela, sempre ela, insiste preucupada, depois de perguntar porque demorei para atender o telefone, se eu tinha ficado bem sobre ontem a noite. Quis ser grosseiro, mas, como não tenho mais identificador de chamadas perderia na grosseria, podia dizer ter me atrapalhado em puxar as calças ou na despedida de outra pessoa alimentando o imaginário doentio e ciumento. Bem, que cada um faça a sua parte, hoje sou telefonista e portador de enxaqueca. O vinho, foi ele a unir as duas passagens, de baixa qualidade, e doce, não foi suficiente para aquecer o momento, assim como as velas que eram nanicas e apagaram ainda nos preâmbulos. Ela, sempre ela, fala tanto de seus problemas cotidianos que faz pulsar minhas veias mais do que o álcool etílico e o cheiro da benzina que usei para limpar o resto de parafina que escorreu da mesa à cama da minha cadela. O telefone toca novamente, o tinido repercute no cérebro que não quer mais discutir a relação nem os fatos. O que foi mesmo que encomedei pelo correio? Tomara fosse uma cabeça nova, ou melhores idéias, mas não, lembrei, foram velas, místicas e milagrosas, na posta, a aposta de dias mais tranquilos.

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