quinta-feira, 26 de junho de 2008

Momento


Casa


Achei o local que queria. Não por muito tempo, pois minha inquietação não vai permitir que fique aqui por perto. Abstraio por hora qualquer solicitação e deixo que a única demanda seja o silêncio e, quanto muito, o som distante das ruas.
Dia nublado é o melhor para cabular aula, dia de sol, para conversar com as paredes, de preferência de casas alheias. Se tivesse mais claro sairia para trocar idéias e, quem sabe, acatar conselhos, concretos, como dos antigos e vividos prédios.
Tenho um livro em minhas mãos, suas páginas me confortam, o título instiga pensamentos e me vejo em outro texto sem que ler seja preceito. De esguelha, e a minha maneira, espio a vida que passa, mas a vida que a vista atravessa é apenas a vida sem pressa, idéias mal concebidas, além do que perceba, mexem o olhar de fora para o que tenho por dentro. Meu mentor é também tormento, o mesmo clamor que induz á calma depois atiça e desperta. Achei o local que queria, mas meu mundo é turbulento, achei o tempo certo, este tempo é o momento.

sábado, 21 de junho de 2008

Foto

Este texto esta em busca de uma fotografia. Pretendia sair, desde o momento que vi a luz do sol, mas enfraqueci a vontade na mesma hora em que o cinza tomou conta do céu e abortei o que talvez fosse o momento máximo que teria para encontra-la. Chove.

Inverto a ordem da criação, do mesmo modo que, sem motivo, me tiraram a inspiração e a claridade, tento, num arremedo pobre, disfarçar o que os mais atentos perceberam, mas nego, como tudo que me foi proibido, até que encontre esta extrema, e reveladora imagem.

Correto, mas só depois que a chuva passe...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Pensando

As vezes a paz pode ser apenas fechar as janelas, apagar a luz e desligar o telefone.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Fraldas


Fraldas, upload feito originalmente por Camafunga.

Será que tomei banho hoje? E ontem, quantas vezes teria escovado meus dentes? Pelo menos os lençóis devem estar vencidos, fazia dias que nem dormia em casa, e não identifico a cor do meu travesseiro. Nos vidros, há uma nesga de poeira que desenha um arquipélago e alguns braços de mar no azul que me confunde da janela. Estão abertas permanente, moro alto e as roupas, mesmo as menos íntimas me reconhecem. Estou jogado. Pássaros passam sob minhas ilhas e afundam neste mar de fundo falso, menos falso que o da TV que não quis colocar no quarto. Ouço movimento por morar no centro mas minha cama é o limite deste alvoroço, sinto cheiro forte a mofo, será excesso de conforto ou estou de banho vencido?

sábado, 14 de junho de 2008

Zelo

Deu tanta saudade agora. Anseio te encontrar com um mimo, mas não adianta nem correr, não há livraria aberta e o que queria transmitir ainda não encontro escrito, nem musicado, afinal, títulos não materializam lembranças, são só meios, é o que procuro, algum para sentir-te aqui e agora.

Uma vez te presenciei perdida entre eles, jogados e desinteressada, fingias, esbanjando sabedoria fútil.Eu, nem me importava, firmava o interesse em te manter importante e exigir de ti que não ficasse calada.

Silêncio! Não há unanimidade, nem sobre mim, embora...
Sonho me faz acordar esta hora. Sonho sem erros, eros e não cupido, em seu dever finalmente cumprido, flexa e desperto em inspiração edênica até o agito, apronto.

Deu tanta saudade, que queria te encontrar num toque, mas não adianta nem correr, não sei se encontro agora outro coração aberto, e a esta hora preciso mais é de certeza. Lembranças, além das letras e estes títulos largados, não são modos, só despertam e aguçam mais todo desejo. É o que procuro, algo além e ter-te, aqui e agora.

*original de janeiro de 2006

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Iluminada


Iluminada, upload feito originalmente por Camafunga.

"Andar com fé eu vou, a fé não costuma falhar..."
Rezo por um prato cheio de feijão e algumas almondegas. Sei que não sou previdente nem claro nos meus objetivos, mas vou em frente sabendo apenas que o caminho tem fim e não requer atalhos.


Na França existe um museu de aromas onde as pessoas podem aspirar recordações e saudades. Interessante.
Encontrei esta propaganda antiga, é da década de cinquenta parece. Este é o perfume que minha avó usava. Quase consigo sentir o cheiro e lembrar dela, suas manias, e seu carinho, e do frasco que ficava observando por tempos tentando entender como o sândalo amarrado com uma cordinha vermelha tinha conseguido entrar.
Agora vejo que o perfume ainda existe, sinto a tentação de encomenda-lo, mas tenho medo de que não mantenha o mesmo aroma ou que a memória não se mantenha como a dela que ao final da vida, seletiva, apenas reconhecia duas pessoas, e eu era uma delas.
Na foto o produto vendido como joia:

terça-feira, 3 de junho de 2008

Primeiro clique aqui:

Copo de Amaretto, um som de fundo, Harry Conick Jr.
A janela, um pouco menor do que devia, não expõe Manhattan em descortino, mas apenas uma parede suja, muito próxima e contínua. Meu loft esta mais para "basement", e não importa se com isso me afundo, este espaço é pequeno, mas sou o dono deste mundo. Afasto o puff de jeito, um chute, voam cartas, dois passos, os primeiros para a esquerda, para direita, sem compasso. Olho meio para o lado, esqueço dos olhos fechados, quebrada de quadril indiscreta, vertígem confunde meus astros. A parede escura intimida, mas mantenho elevadas ao vento, as mãos que afastam tristezas, também perdem-se em movimentos. Tanto som embaralha propósitos, "Kissing a Fool", essa é bem animada. Meu gosto mistura estílos, espalho mais uma almofada, néscio reviro Gershwin no túmulo, antes que outra vida o faça, esqueço qualquer contratempo, agito alegria escassa. Pijama surrado, sem robe, nem smoking, nem fumo ou cigarro, até a fumaça que cerra, é arrogante, é leve mas falsa. Mais uma embalada e já durmo! "When a fall in love", já é tarde, vizinhos chegarão em grupos, para saber do que se trata. Celine é pop e brega, olha o nível da bebida! As calças alargadas expoem nalgas, de fino, só sorver delicado. Blue Note, é uma bruma cerrada, mas meu gueto não passa da sala. Sax, tenor, que saco! Cade o cd emprestado? É Getz, Dexter e Gordon, me sinto obeso e nauseado, Coltrane, não me vejo mais jovem, opa, o puff, tropeço. Desajeito no estofado, cheiro velho a preconceito, vem do prédio, aqui na frente, ou será que é do lado? Bille, Ella me abandona, licor doce derramado, tonto de amor não me encontro, tonto de dor revirado. Vaughan, "vaudeville", sou um astro, isto é um teatro de espetáculos. Broadway, minha relação não esta em voga, Sara, ameniza sem cura. Aretta, acabou meu amaretto, perdi as calças, estou exausto. Me jogo em qualquer copo sujo, e é por aqui que me apago...

*Republicado a pedido.