Vi meu olhar emprestado em outro rosto, e não tive vontade de retoma-lo. Descobri que há paz no silêncio, onde personagens tomam a vida e saem da poesia para que se permitam ser tocados. Há entendimento e ternura, mesmo em relatos cada vez mais breves, porque não parece ser necessário estender-se em termos ou condições para que se desfrute do consenso.
Vi meu futuro ser proposto em outro tempo, e não corri atrás do que parecia já estar perdido. Senti o equilibro do calor das mãos unidas que, de tão macias, afagam dos pés a alma, indicam, além da serenidade, que irradiam mais energia do que se busca e compartilha.
Vi, no disfarce da verdade, o que se oculta apenas por vaidade, única mentira de caráter que mais une que afasta. Trouxe comigo, da minha vida, dada por devassa, um aprendizado, doação e afinidade.
Vi que estava com o olhar correto, que o tempo estava limpo e liberado, por isso, não me deixei por rogado e hoje estou mais feliz e acompanhado.
terça-feira, 29 de abril de 2008
domingo, 27 de abril de 2008
terça-feira, 22 de abril de 2008
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Plantão
Hoje no diário da Morsa relato dois casos acontecidos no plantão, bem coisa de morsa mesmo, mas como ando misturando as coisas ai vai uma delas:
Ela relata que esta sendo espionada por aparelho que lê ondas cerebrais. Intercalado por momentos de lucidez relativa, afirma que sabe que este tipo de coisa não existe, mas volta a perguntar se mesmo não sendo possível, poderia isto estar acontecendo. Antes que eu mesmo ficasse confuso, peço que ela seja mais clara, e, de uma forma objetiva, relata que toda vez que pensava em sexo, tinha suas ondas lidas pela vizinha fofoqueira que morava ao lado. Isso, somado a vergonha de sair de casa, impedia uma vida íntima e, o que era antes um segredo, agora era um tormento. O marido sem entender nada, e com cara de apavorado, apenas gesticula e repete que aquela não era sua esposa de trinta e tantos anos de convivêcia. Tento explicar que ali não era um hospital psiquiátrico e que sera tarefa para um especialista, mas, visto o adiantado da madrugada, o meu cansaço e a insistencia em ter uma solução do marido, claro que tentadas algumas alternativas medicamentosas ao meu alcance, entrarei na fantasia. "Dona Fulana, este aparelho só funciona no quarto?" Ouvi um sim. "Então vá para casa imediatamente e tenha relações com seu marido, na sala!". Pelo alivio da coitada e pela cara de satisfação do companheiro acho que dou a melhor receita. E eu fui dormir, as quatro horas.
Diário da Morsa
segunda-feira, 7 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
Despertar
Morri sem perceber.
Penso em abrir os olhos para confirmar, mas tenho dúvida. Visões antecedem o despertar, e confundo o frio intenso de estar descoberto com o calor ainda presente das últimos horas, terei que decidir desde a roupa que ora me abandona até se precisarei de meus óculos. Será que ainda enxergo ou somente sonho tais imagens que tanto aguardo? Quero tocar de leve, e sentir. Há um corpo aqui ao lado ou apenas um palco revirado? Invade um aroma sutil e agradável, e agora até o eter quer reter mensagem na mistura de sentido e realidade. Vou permanecer, por mais um tempo, imóvel, afinal percebo-me inerte, rijo, embora leve. Desde os pés que se depositam sobre algo, até os lábios que de sede salgo, sinto a saliva do que me parece um gosto alheio, é puro, gosto e pulsa coração e veias, mas se estou morto o que lateja é um desejado devaneio? Simples.
Morri sem perceber, e posso não estar só nesta passagem. Então, será que devo liberar a vista? Flutuo numa conquistada necessidade, liberto, caso tudo seja confirmado, só o medo é pai do falso e maltratado. Hesito, prefiro é acreditar nisso, abrirei os olhos, antes, acato, aceito, posso precisar ter morrido para permanecer vivo e pleno.
Penso em abrir os olhos para confirmar, mas tenho dúvida. Visões antecedem o despertar, e confundo o frio intenso de estar descoberto com o calor ainda presente das últimos horas, terei que decidir desde a roupa que ora me abandona até se precisarei de meus óculos. Será que ainda enxergo ou somente sonho tais imagens que tanto aguardo? Quero tocar de leve, e sentir. Há um corpo aqui ao lado ou apenas um palco revirado? Invade um aroma sutil e agradável, e agora até o eter quer reter mensagem na mistura de sentido e realidade. Vou permanecer, por mais um tempo, imóvel, afinal percebo-me inerte, rijo, embora leve. Desde os pés que se depositam sobre algo, até os lábios que de sede salgo, sinto a saliva do que me parece um gosto alheio, é puro, gosto e pulsa coração e veias, mas se estou morto o que lateja é um desejado devaneio? Simples.
Morri sem perceber, e posso não estar só nesta passagem. Então, será que devo liberar a vista? Flutuo numa conquistada necessidade, liberto, caso tudo seja confirmado, só o medo é pai do falso e maltratado. Hesito, prefiro é acreditar nisso, abrirei os olhos, antes, acato, aceito, posso precisar ter morrido para permanecer vivo e pleno.
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