quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Teatro

Borro a imagem em uma lembrança cada dia mais distante.

Sou direto e me sinto responsável. Abraço forte e por mais tempo do que esperado, correspondido, relaxo ao terno calor até sentir a cadência quase uníssona que une nossos peitos. Retiro a guarda, falamos em muros, nariz de palhaço e prosa sem sentido.

O tempo passa na irresponsabilidade das tarefas não cumpridas, percebo e assumo, posso ser obliquo na escolha pela sedução dos temas. Mais abraços, até fechar os olhos e poder dormir sem medo, menos tempo a aproximar imagens que ficaram perdidas no borrão da memória. Arte é o que nos leva: textos, música, dança e movimento. Sentimento é o que nos une: corpo, afeto, identidade e momento.

Clareio a visão para perto ao permitir a intenção sem medos.

Diário da MOrsa

domingo, 28 de outubro de 2007

Culinária

Come-se a sopa pelas bordas.
A vingança é um prato que se come frio, como uma sopa.

Minha mãe tinha uma receita ótima, que como mãe, acabou não ensinando. Era para que a gente voltasse mesmo depois de saido debaixo de seu colo para provar e dizer que estava ótimo. Eu gostava de "canja de guampa" como ela denominava o prato a base de rês mas feito a semelhança de um caldo de galinha. Ali ia massa, verduras e tantos temperos que misturados a gordura da carne previamente frita na mesma panela, davam gosto de tudo, menos canja. Um dia, por me ver mais deprimido, ela me deu a receita, mas, mesmo com todo ensinamento, saiu apenas um arremedo. Naquele tempo eu tinha com quem dividir o prato e o gosto, mas não o significado.

As vezes esqueço detalhes como este, outras penso que não tive estes tipos de carinhos. Uma sopa e tantos sentidos, e nem era este que eu pensei em ser anunciado.

Acontece que o líquido ainda esta quente e tenho medo de queimar os lábios, vejo mais o que esta no centro sem perceber o que já é possível pelos lados. Preciso ter um pouco mais de paciência. Minha mãe até deu a receita, mas não ensinou como se dá o deleite.

sábado, 27 de outubro de 2007

Caminhos

Vontade e possibilidade não andam juntas. Não nesses dias, nem da forma pela qual fui acostumado a dirigir meus pensamentos. Vontade corre na frente, possibilidades chegam por atalhos, e continuo sem poder traçar destinos.

Quase perguntei, como se fosse o mais experiente, isso e timidez ou pouca coragem? Mas me contive apenas na espera porque não havia nada que pudesse ser ganho naquele espaço além do amanhecer breve e alguma ressaca. Fiz fumaça pelo prazer de me ver perdido, mas não levantei apressadamente da cadeira, nem mostrei a conta que ja estava paga.

Enfím consegui ouvir e contar na troca de nossas histórias, diferentes embora mundanas, ricas mas sem o brilho nem a dor da realidade. Atento, como se interessado, queria mais poder descarregar meu empobrecido sentimento, uma certa desesperança de tudo aquilo, uma confusão causada pela bebida e a dificuldade de ver bem as coisas em meio a tanto cigarro.

O final não relato, até porque outros me leem, analisam e comentam. A verdade é a mesma, é a minha do momento, vem da vontade e da possibilidade, até que se encontrem.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Livro

Cigarro Ensanguentado

Hoje é o lançamento do livro do meu pai, João Félix Soares Neto, "O Cigarro Ensangüentado e Outros Contos" as 18:30 no Mosaico Café & Livros, junto à Ótica Estima Zona Norte.
A respeito:

A última revolução interna do Rio Grande do Sul descaía para a paz. Sustentava-se apenas pela renitência de alguns líderes maragatos exilados no Uruguai. Foi quando ocorreu a tragédia de Jaguarão – um duplo homicídio que abalaria duas gerações daquela cidade , do Arroio Grande e de toda a fronteira sul.
A narrativa de tal acontecimento real dispor-se-ia como prólogo deste livro. Menciona com breve particularidade o cigarro de palha manchado de sangue, caído da boca imprecativa de um médico republicano, baleado, que tinha as divisas de tenente-coronel da Guarda Nacional e cuja morte imediata livrou-o de ver, logo depois, o filho também morrer. E aquele cigarro subsistiria oportunamente como pormenor de candura, símbolo do despreparo para a morte.
Mas isto é da primeira história. A única que precede a existência de Netinho, personagem da maioria dos demais trinta e um contos, contos que se encadeiam cronologicamente – de sua infância à maturidade - prestando-se para distinguir o que se chama de romance de formação.
Veja-se trecho do prefácio do escritor Aldyr Garcia Schlee: “É um livro em que um longo conto inicial – narrado como se fora uma reportagem, tocado levemente pela magia da ficção – define desde logo o restrito espaço temporal e espacial que haverá de marcar os demais contos, seja em seus aspectos históricos e geográficos, seja em seus componentes políticos e culturais.”

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Tempo

Eu vejo tudo a distância, mas percebo.

Ela me disse que ia ser melhor depois que eu saísse a vida, mas a vida também atende a domicílio tem sido assim desde a mudança até as visitas inesperadas. Antecedência não faz parte do programa, nem há como acertar sempre, mas esta melhor que antes em vários e decisivos aspectos, principalmente neste, na flexibilidade do tempo. Detalhe, o tempo se curva mas não dobra, logo, tenho que manter a paciência mas apostar apenas em encontros que possam dar certo. Então resumo com a frase de Vinicius: "a vida é a arte do encontro...", mas completo, desencontro não é a falta de vida, quem sabe uma curva do tempo que perdeu a pressa.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Dueto

Eu e Rosalia.

Lama
(Mauro Duarte)

Pelo curto tempo que você sumiu
Nota-se aparentemente que você subiu
Mas o que eu soube ao seu respeito
Me entristeceu, ouvi dizer
Que pra subir você desceu, você desceu

Todo mundo quer subir
A concepção da vida admite
Ainda mais quando a subida
Tem o céu como limite

Por isso não adianta
Estar no mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O dia depois.

Agora, mais instalado na casa nova, consigo aproveitar algumas das facilidades deste local. Morar tão perto de tudo que gosto é uma delas.

A ADSL e telefone chegaram em boa hora, foi melhor ter ficado um pouco incomunicável nestes dias, ajudou a dar tempo para arrumar armários, continuar selecionando as coisas, e também liberou as pernas e o pensamento para esta nova fase, o que foi mais do que interessante, necessário.

A acolhida no Sacarrolha foi excelente, além de todos os amigos a surpresa dos balões e um cardápio espetacular. Teve canja musical e dança, além da total integração entre todos.

Outra, não vou poder responder os recados do Orkut, então fica um geral agradecendo a todos pelos votos.

domingo, 21 de outubro de 2007

Retalhos

As noticias ficam atrasadas e fracionadas enquanto não tiver ADSL em casa.

Há um novo projeto em andamento, sem nome definitivo ou apropriado, hoje é chamado por um palavrão pesado, algo sobre a minha experiência nova nestes dias, depois talvez ganhe uma denominação mais elaborada.
Aproveito o novo escritório, a bela vista e o silêncio para registrar tantos fatos, afetos e sentidos, que talvez isso ainda possa virar um conto, quem sabe um livro.

A janela é ampla, o movimento intenso, dependendo do ângulo, posso me achar em outra cidade, outro mundo. Lembro as crônicas que escrevi sobre diversas vidas, lofts, softs, almofadas escarlates, jazz e bebidas ácidas. Sem riscos, estou nele e me admiro, tive conversa longa com quem não conheço caminhando só pela mesma velha e agora estranha cidade.

Amanhã termina contagem regressiva, mais um ano, ou menos de vida. Não vejo hora para retrospectiva, ao contrário vislumbro concretas possibilidades de acionar o cronômetro até então estacionado.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Sobre o sentimento...

Não há letra que acompanhe porque não há musica que acalme.
Ontem percebi os pedaços de história no reboco envelhecido e as manchas nas paredes como marcas de memória, por isso não as havia pintado, por isso mantinha os descascados como prova de vida. Acho que este é mais um texto que não compartilho com quem de direito, nem sei se alguma vez foi compreendido os sentidos, norte para o tapete da sala, oeste para a luminária do quarto, afinal posição solar boa é a do plexo, agora, assim, janela alguma ilumina adequado, por mais que aberta, mesmo escancarada. Portanto, é chegada hora, nenhuma tinta mudaria a matiz do que se passa, nem massa renova tantas perdas acumuladas. Casa nova, é necessário, e silêncio, pois não há letra que acompanhe, nem música que acalme.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Para bom entendedor...meia pataca!

Chega o frescor do amanhecer e nem um traço de sono foi tirado, mesmo em casa com todos os ventos e chuvas que castigam, vem, por uma indiscreta janela, a frescura de uma juventude que se manifesta plena, plena de mim em todas trocas e indiscutíveis possibilidades, expontanea e leve sem o rancor das mágoas. Enquanto isso, só em sua fantasia pobre, Quixote dorme a postos com suas enfeitadas e inúteis armas. Assim será mais fácil, em breve, liquidarei sozinho meus próprios medo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Flash

Não voltei apenas a fotografia, meu pai insiste, de forma carinhosa, que devo me expressar em livro, mas ainda exijo tempo para germinar mais descobertas, talvez além do violão nas segundas, dos pianos que passam para fazer arranjo, ou da tristeza pelas perdas que não terão mais volta. Acho que devo aprender com minha sensibilidade, há uma irritação sadia que pede que meus filhos permaneçam a certa distância, que a tv fique desligada, que as janelas não permitam a entrada de ruídos indesejáveis. Há uma força que não se acomoda e ultrapassa, ainda bem, a maior parte desta saudade.

Nunca achei que seria fácil somar aos ganhos o fator do tempo, dividir ao meio e subtrair as perdas na razão inversa da insanidade, mas também nunca fui bom em matemática, meus números tem sido mais ao acaso, sou aleatório como os fatos, impreciso como a mente, instintivo como o desejo. Sou subjetivo e pago por isso, escrevo da mesma forma que sinto. Só por enquanto, fotografia que aguarde.

Diário da MOrsa