domingo, 30 de setembro de 2007

Passos e Poços

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? Agente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói.Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio Fernando Abreu


Esta foto é de ontem, estavamos eu meu irmão, cunhada nova e filhote apreciando um pôr-de-sol no canal. Todos libertos em torno de pessoas ainda mais libertas e alternativas, tanto quanto os sentimentos novos experimentados.

Desde que comecei a descobrir os espaços escondidos da cidade pude avaliar que era possível ter beleza até no meio da decadência. E foi assim quando cheguei a primeira vez ao quadrado das doquinhas, como se estivesse me preparando, para que no momento oportuno, viesse a ter o cenário adequado para de onde tirar inspirarão e força.

Minha avó diria, nada como um dia após ao outro e mais uns outros depois de tantos dias para que a desesperança se transforme em conquistas, e sinto isso, mais rápido do que o imaginado, embora com os pés bem no chão, os pés, mas não os ouvidos que mesmo sem maiores procuras encontraram num piano inesperado a acolhida de afeto e sensibilidade. Já tenho o cenário e o tema, falta muito pouco para iniciar a peça. E este é apenas mais um passo.


Ps: Agradeço ao Célio pelo texto enviado que reproduzo acima, sensibilidade é tudo...

Diário da MOrsa

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Dias de chuva


Dias de chuva, upload feito originalmente por Camafunga.

Dias de chuva

O olhar engana, o que parece mar pode ser poça, água parada, rua alagada.
O olhar exagera, a sombra sugere a altura a que mente espera.
O olhar confunde, ao fundo existirá, sempre, outro e outro mundo.
O olhar limita, imita o que deseja o sentimento, este era o olhar, era o momento.
O olhar mente, a mente reflete num mar sem ondas, a poça...
O olhar que força.
Ele me entende, se precisar, estende e quebra o pensamento em imaginária orla, ora...
O olhar me acalma e até que sequem as ruas fixarei no olhar minha molhada alma.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A parte

Sem dor, pelo momento, não me reconheço no que foi perdido.

Hei de entender na dimensão do tempo, pela riqueza dos fatos e detalhes que nos diferenciam, que deveria estar aqui pela lamúria de uma triste descoberta, da traição composta pelo peso destes anos, o que devia ser chamado assim: por uma vida inteira!
Além, ou mais, sem desespero agudo, me apresento nú apenas sentimento, mesmo que leve, sinto um alívio próximo, até hesitante acato o esperado. Então, troco a conquista do que não foi possível para ir além do que imaginado, um respirar mais puro a inspirar sentidos, um olhar maduro mais valorizado. Reconheço, embora sofra, com sobrado medo, o que foi forjado pela mentira, e mantida vivo em cínico segredo, em troca, me solto livre do amargo gosto da bebida alheia, do desagradável tabaco, mesmo que não fume, do feliz adeus ao corpo, muitas vezes rígido, dos atos falhos que não se permitem retribuir afagos, por fim, é o fim da inconstância das opiniões reversas, de caras as avessas e de retaguardas, dos receios constantes agora fundamentados, do desconfiar correto que não foi tratado.

Sem dor, pelo momento, feliz me compreendo. E esta é só a primeira parte.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Convidados

Inicio uma série de textos alheios sobre minhas imagens por convidados, e não poderia de ser outro a inaugurar que não o Luiz Tarciso (Há vida depois dos 40), meu companheiro de muito tempo nesta viagem pela blogosfera. Pedi, e ele não deixou por menos. Com vocês solitude.

Solitude


Sol itude, originally uploaded by Camafunga.


ensolarado casarão de antigamente
que doura a tarde
e espalha reflexos nas manhãs
quantos passantes forjaram suas calçadas
quantos amantes suas camas festejaram
e a infinidade de enredos que abrigou
agora jaz sob um sol preguiçoso
enclausurado no crepúsculo
seu visitante solitário
lembra ali sentado
da sua própria sorte
ou quem sabe a sorte do sobrado
e seu olhar perdido
alcança na linha do horizonte
alguma coisa do futuro
se contrapondo a uma
infinidade do passado...

Luiz Tarciso Souza

domingo, 16 de setembro de 2007

Passeio


Passeio, upload feito originalmente por Camafunga.

Intragável

Eu não ia responder que achava ele um saco.

Já ouvi tanta barbaridade que aprendi, o melhor argumento é o silêncio, fazer cara de surpreso e deixar que as opiniões cessem por falta de estímulo, pelo menos estas, como tentar indicar quem foi o melhor músico, a melhor performance em campo, quem é o verdadeiro proprietário e onde o testa-de ferro, que só ele conhece, vai quebrar a cara. Odeio estas assertivas rígidas, mas continuo achando, ele é um chato!

A janta ia bem até a primeira bifurcação de idéias, começou com o ponto do boi, suculento ou carvoento, se sanguinolento havia o risco de doenças mas também estariam preservadas as proteínas, se escuro e seco, afora o gosto de fumaça, não sobreviveriam bactérias ou outra pestilenta entidade. Para mim seria apenas um observação de gosto mas virou um tratado de culinária, patologia, estética e filosofia. Sócrates teria vomitado, Platão saído da Caverna, ou seria do armário?

As batatas desciam encrespadas, e o pepino já não era mais um vegetal, mas uma metáfora. As horas em tédio seguiam por outros lados, e foi difícil conter a observação que não devia ter sido dita, mas era, em ultima instância, a única definição a ser dada, e não contive.

Eu não ia responder, mas disse: "Amigo tu estas insuportável!"

Feito.

Diário da MOrsa

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Decay


Caixa d'agua, upload feito originalmente por Camafunga.

Já comentei sobre as caminhadas solitárias com mp3 e máquina digital, mesmo quando parece que tudo foi registrado, basta mudar o ponto de vista ou a altura do olhar para descobrir novidades. Esta imagem é do que sobrou de uma caixa d'agua da Estação Ferroviária abandonada de Pelotas, o mesmo local que já passei varias vezes por estes dias, onde fotografei um gato assustado que não desce do telhado, a casa que parece perdida do cenário do Quatrilho, as crianças que ainda conseguem aproveiar o tempo com estilingues e bolitas.

A segunda foto, em detalhe, desta escultura do passar do tempo, não recebeu nenhum tratamento exceto a supressão de cores, mas sugere um grafismo elaborado.

Possibilidades de uma sexta sem compromisso


Possibilidades, upload feito originalmente por Camafunga.

Me sinto programado ao trabalho, tanto, que quando criei esta folga antecipando o fim-de-semana, foi por uma necessidade até certo ponto física, palpável e verdadeira, e foi bom! Obtinha o alívio das tensões acumuladas alimentadas pelas noites mal dormidas. Melhoro, mas o único sintoma que se mantém é a dificuldade em ver a vida como ela deveria ser. Mais tranquila. Cansei de pensar sobre finitudes e sentimentos aprofundados que poderiam estar levando a algo. Mas tenho dúvidas. Hoje é sexta e não tenho nada marcado, procuro uma dor que não determino, algum compromisso esquecido, uma conta atrasada que não foi paga, mas nada. Então, frente a tantas possibilidades que me vejo me obrigo a fazer a melhor escolha. Dúvidas, dormir é perca de tempo, caminhar vai me deixar suado. Na tv não passa nada que preste, e não consigo estar parado. Isso não esta correto, chego a pensar que o melhor talvez fosse colocar de volta o relógio no pulso, rever a agenda e preencher os vagos horários, ou corro o risco de ficar assim ainda mais cansado

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Entre bules e crenças


Despensa, upload feito originalmente por Camafunga.

Esta foto faz parte de uma série feita hoje a tarde na Colônia Picada Carlos durante uma visita de trabalho.
Depois de muito tempo vivendo em condições sub-humanas uma família, pai, mãe e filha, recebem uma casa nova em outra localidade, como presente me pediram uma fotografia para recordação, era tudo que eu queria, poder registrar com meus olhos o que havia de peculiar e inusitado naquele particular ambiente.

Outras imagens.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Gatos


Friends, upload feito originalmente por Camafunga.

Mercado Público de Pelotas.
Domingo a tarde.

Jornal da Manhã

Quando meu pai deixou de assistir jornal de TV tentando fugir das desgraças, achei tão estranho quanto inútil, para mim "era coisa de velho", mais uma mania junto com a suposta rabugisse que ia a cada dia mais se intensificando.

Acordei como em toda segunda-feira, pior, como em toda segunda-feira que desperto no trabalho. A TV esquecida ligada e a vinheta do Bom Dia Brasil serviram de despertador matutino. A taxa de acidentes, e as mortes neste fim-de-semana de feriado, foi o maior de todos os anos, o índice de criminalidade explodiu, como a cabeça das duas crianças mostradas como vítimas de bala perdida, teve até uma festa pop em que todos foram fuzilados. E não adiantava nem procurar ajuda, porque no SUS faltam muitos médicos, um disse que era culpa dos valores, responsabilidade do governo, ridularmente baixos, outro críticava, aos gritos, a falta de comprometimento dos profissionais que não querem assumir os riscos em troca de uma coca-cola. Aí vem o futebol, que eu particularmente odeio, este circo que me incomoda, disfarça a previsão de aumento de preços, que falta leite no mercado, permanece o caos na aviação e os riscos. São diversos os riscos, não há segurança, nem em casa, nem em estradas e dizem vão mexer na aposentadoria, estou lascado. O Senado é pior que em Roma, Julio César teria se matado, Renam joga com os conselhos, ameaça falar mais alto, enquanto uma familia, desdentada, sorri anunciando, vai manter um Lula no mandato. Socorro, quero o controle remoto, prefiro mesmo ficar a parte.

Devo é estar ficando velho. Agora é tarde. A vinheta da manhã não me sai da cabeça, sinto um misto de medo com enxaqueca. Me digam o que faço com o resto do meu dia?
Amanhã não ligo este troço, só falta meu filho me chamar de rabugento, mas meu pai tinha seus motivos, eu que não entendia direito.

Diário da MOrsa

domingo, 9 de setembro de 2007

Acreditar

Eu não creio em bruxas mas conheci uma outro dia.

Uma situação real há poucos dias vivida, fez-me lembrar o teatro. Não creio em fadas ou monstros, mas, desde o primeiro contato, tive certeza, estava diante de um caso. Um pouco, influenciado por suas histórias, de sovinice e alardeadas maldades, embora da, agora, defunta, bem além do preconceito, bastou sua mão semi-estendida, os dedos frios e curvados, a falta deles um aperto, para que eu recuasse assustado. No entanto, por consideração a filha minha amiga, o genro e um cunhado, acompanhei-a até o buraco.

Odeio, de qualquer forma, velórios, mas dos poucos que não puderam ser evitados, este foi o mais diferente, quem sabe dos mais bizarros. Além do público pequeno, da falta de um choro motivado, a aura que estava presente era mesmo de alívio, um alívio generalizado. A entrada uma coleção de fotos, de filhos, netos e enteados, todos sorrindo e vivos, num mural improvisado. Tinha mais foto que gente, poucos de corpo presente, a minoria amigos, mas também não pareciam sofrentes. Os diálogos em volta da tia eram sobre o clima e o dia, que não fora de nada apropriado, pois tivesse escolhido uma segunda, estava frio para sair tão cedo de casa, e afinal, aquele era feriado. Alguém fez um comentário breve, mais pessoal sobre a falecida, que era viciada em compras, em bingo e artesanato, mas nada mais interessante, afetivo, triste ou engraçado. Dado o rito por findo, o mortório encerrado, o defunto despedido, definitivamente encaixotado, foram todos para as casas aproveitar o tempo que restara. Antes porém um cuidado, algo que aos estranhos fez chocado, as filhas colocaram com jeito, leve, sobre o travesseiro da ida, sob a cabeça mais rígida a tal coleção de retratos. Todos sorriam apertados, e para sempre seriam lembrados.

Do que soube no dia seguinte, ou nem dois dias passados, que já haviam dividido a mobilia, as louças, as bebidas e os trapos, da casa grande vazia não ficara mais nem um sapato. Avareza será hereditária, ou foi mal criada esta gente? A verdade é quem nem fria as paredes, a casa estava alugada.

Fui visitar minha amiga, mas por outros e amenos motivos. Notei um entulho de sobras, peças por todos os lados. Quadros demais nas paredes, louças saindo do armário. Um piano que era tão fino parecia ali só jogado. Ainda era inverno este dia, mas eu estava atrasado. Pouco aproveitei da lareira e parti impressionado. Não era a mesma casa que conheci, a atmosfera cheirava a passado. Julguei estar exagerando, talvez mal impressionado, afinal eram as coisas da morta, não enfeites programados.

Menos de duas semanas passadas recebo um telefonema, era minha amiga de voz ainda mais embargada, em meio a um pranto cortado, pensei que era caso de morte, a mãe eu ja tinha enterrado, quem seria agora, alguém mais foi premiado? Não era material o sofrimento, notei pelo choro emocionado, era a casa que havia queimado, não sobrava dela mais nada. Mobilia, casacos e cacos, nem louças ou sequer sapatos, ficaram apenas umas fotos em um canto preservado. Eram fotos da cuca, bruaca. E eu, confirmei o antecipado, não creio em bruxas mas conheci uma delas outro dia.

sábado, 8 de setembro de 2007

Cabelo

Não estou me achando legal.

Hoje é sábado, ontem foi feriado, descansado chamo as companhias para o passeio matinal de rotina. É quando faço o que é mundano, deixo para pagar as contas, jogar conversa fora com alguns amigos e em semanas alternadas, dar a forma no cabelo.

Estou de cara com o espelho, e independente de avaliar se fico velho, reforço o que não se renova com o tempo, há muito não mudo a forma como dou forma a meus cabelos. Até já troquei de barbeiro, umas quatro ou cinco vezes, mas repito sempre a primeira frase, "eu gosto é assim bem curto, que de para não precisar pentear direito, que quando acorde só de um jeito, mas que fiquei aqui meio cheinho que é para disfarçar um pequeno defeito", e passo a mão salientando minha formação australopteca de nuca, não é um pequeno defeito, por vezes também repito esta história, do dia que me raparam os pelos e nenhum boné dava jeito. Coisa de família que agora não diz respeito.

Hoje me acordei estranho.
Desde que comprei barbeador elétrico observo menos meu rosto, as vezes até deixo uns poucos fiapos de fios soltos, mas troquei a visão pelo tato, e se a mão escorrega tranquila é porque esta terminado.

Outra vez entrei em crise. Foi na época que ia muito a capital Porto Alegre, e havia uma necessidade de mudança geral. Conheci novos e estranhos amigos , Bom Fim era na verdade um começo. Para não ficar tão a parte, entre gírias, roupas e entendimentos, nada melhor do que mudar a forma, resolvi começar com os cabelos. Procurei, meio ao acaso, ali mesmo, alguém que operasse o milagre, queria mudar era a cabeça, mas por fora era mais rápido que por dentro, e achei, em plena Vinte e Quatro de Outubro, um "salão" que era o tchã do momento. Tão exótico, quanto caro, fiz logo amizade com o cabeleireiro, num diálogo curto e direto, um corte rápido e certeiro, apenas disse: "estas vendo esta cara? Quero outra" pensei, e não importa o dinheiro ". Nem perguntei qual era a onda, imaginei-me moderno, marcado corte romano, saí foi com cara de Nero. Esta fase durou pouco, como minhas necessidades de estima. Voltei para meu antigo barbeiro retomando a mesma rotina.

Hoje não me acordei bem, mas não vou me sentar a cadeira, talvez fique apenas nas contas, na conversa com os amigos, vou dar minha volta no centro, e esquecer um pouco o que sinto, se não quando vejo me rapo, não querop correr este risco.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Novidades

O endereço www.camafunga.com muda de casa sem mudar o endereço, a partir das próximas horas estará hospedado em casa própria podendo desfrutar de alguns recursos novos.

Ontem a temperatura, que não passava dos 10 graus, chegou a mais de trinta. Além da confusão de panos pelas ruas, desde camisetas até casacos de lã que alguns não deram fé em tirar, vem ai nova safra de doenças respiratórias, é só aguardar.

E falando em aguardar, depois de uma espera de 20 dias por uma tal peça que vinha de São Paulo, recebo a noticia que meu super Home Theatrer de 600wats RMS, pago em vezes, permanece com defeito, mais uns dias de oficina deve ser praga do meu vizinho que reclamava do barulho, mas deixe estar, ja tenho uma coleção de filmes em sonsurround pesado esperando.